Vinte pelo preço de um

 

Sistema de alimentação contínua permite impressão mais econômica

Julio Preuss

 

Wilson usa o sistema há um ano e só precisou comprar tinta uma vez

 

Mais de seis meses imprimindo 100 páginas por dia sem trocar o cartucho parece um sonho impossível. Parece. Com a chegada ao País dos sistemas de alimentação contínua de tinta, que comentamos aqui no Caderno em abril de 2001, o sonho virou realidade. E a um custo bem em conta. O preço, R$ 150, é próximo ao de um jogo de cartuchos. E com mais R$ 100 por 800 ml de tinta é possível imprimir o equivalente a mais de 20 cartuchos.

 

Meu primeiro contato com o produto foi há cinco anos, quando buscava uma opção econômica de impressão para a empresa onde trabalhava, diz André Magalhães, gerente comercial da Estampa Personalizada, empresa que comercializa o CIS no Rio. Achei o sistema em um site americano e, no fim de 2002, decidimos vendê-lo, conta. Os clientes ficam satisfeitos, pois a economia é grande e a qualidade, excelente, em especial com as tintas corantes fotográficas Formulabs, completa.

 

Foi a melhor coisa que fiz na vida. Estou satisfeito mesmo, comprova o empresário Wilson Celeste, que acoplou o CIS a uma Epson C80 há um ano, para imprimir os pedidos da sua loja virtual, a Bitcão. Como estava gastando muito com cartuchos, passei a usar os compatíveis, mas tive muitos problemas de entupimento. Um dia, ao levar a impressora para desentupir, vi o sistema contínuo na loja e decidi experimentar, conta Wilson.

 

Desde então, ele só precisou reabastecer uma vez os reservatórios de tinta, que ficam em um suporte externo e são conectados aos cartuchos por tubos de silicone. O único problema é que o trambolhinho do lado fica feio, admite. Pode parecer estranho, mas os plotters já funcionam assim há tempos. Sem falar que a própria Epson usa sistemas semelhantes em suas fábricas, durante os testes de qualidade das impressoras.

 

Embora o produto seja muito mais difundido entre usuários de impressoras Epson (as únicas em que a cabeça de impressão nunca é descartada com os cartuchos), acabam de chegar ao mercado brasileiro versões para modelos da HP e da Canon. Esses sistemas não existem em nenhum país do mundo, são lançamentos nossos, comemora Magalhães.

 



Escrito por Cassiano às 19h25
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Casa em ordem

O MEC vai fiscalizar os MBAs. Aqui, dicas para acertar na escolha da escola

 

Greice Rodrigues

 

Em tempos de economia globalizada, de mercados cada vez mais competitivos e exigentes e de constantes inovações tecnológicas, manter-se atualizado e antenado a essas mudanças é uma necessidade vital para quem transita no mundo dos negócios. Nesse cenário, a busca incessante pelo conhecimento é o maior desafio. Seja para turbinar o currículo e garantir a empregabilidade, seja para administrar o próprio negócio, os cursos de especialização  os famosos Masters Business Administration (MBA)  se tornaram imprescindíveis na carreira de qualquer executivo.

 

O cirurgião paulista Marciano Carlos Rossato de Almeida, por exemplo, resolveu criar sua própria empresa de auditoria e administração, mas não se sentia seguro para isso. Recorreu ao MBA em gestão, do Ibmec Educacional, concluído no final do ano passado. A formação de médico não me dava competência para gerenciar. Precisava de algo específico.

 

Procurei um curso com enfoque prático, menos catedrático. Isso foi vital porque me ajudou a enxergar os problemas e as soluções. O curso me proporcionou o contato com outras pessoas experientes. Todos vão dando dicas, idéias que podem ser aplicadas na prática. Essas relações são muito importantes, conta Almeida.

 

Criar mecanismos que garantam esse processo de atualização é a tarefa das boas escolas de negócios em todo o mundo. No Brasil, a febre do MBA começou no início dos anos 90. De lá para cá, houve grande proliferação desses cursos, que não dependem de autorização do Ministério da Educação para funcionar.

 

Estima-se que haja no Brasil mais de seis mil cursos de MBA, a maioria sem nenhum controle de qualidade. Para pôr ordem na casa, o Ministério da Educação anunciou no dia 10 que a partir de agora vai fiscalizar a oferta dos cursos de pós-graduação, entre eles os MBAs. A intenção do MEC é criar um cadastro para identificar e regularizar os cursos deficientes.

 

A iniciativa do MEC vai ganhar um reforço importante. Um grupo de 12 instituições brasileiras, entre elas o Ibmec Educacional, a Fundação Instituto de Administração (FIA) da USP, a Fundação Getúlio Vargas e a Fundação Armando Álvares Penteado (Faap), criou a Associação Nacional dos MBA (Anamba), que a partir de junho também vai medir a qualidade dos programas de especialização disponíveis no mercado.

 

A associação criará critérios básicos de avaliação, como grade curricular mínima e qualificação dos professores. Não iremos substituir os órgãos oficiais, mas queremos atuar como uma fonte de informação para os alunos, afirma Irineu Gianesi, diretor de programa do Ibmec e um dos fundadores da Anamba. As boas escolas ganharão um selo de qualidade.

 

 

Almeida: o médico se tornou administrador depois de um MBA

Mas, enquanto essas ações não entram vigor, a saída é pesquisar. Foi o que fez o executivo Cássio de Quadro Tietê, 37 anos. Estudei as possibilidades minuciosamente. Queria uma escola que tivesse um programa com currículo global, tão eficiente quanto os oferecidos lá fora, conta ele.

 

O trabalho, segundo ele, valeu a pena. Tietê é um dos alunos do OneMBA, da FGV, um dos mais conceituados do mercado. Esse programa corresponde às minhas expectativas porque permite contato com realidades de vários países, afirma. A FGV mantém uma parceria com universidades da China, do México, da Holanda e dos Estados Unidos e leva, a cada três meses, seus alunos para conhecer essas instituições. A experiência e o conhecimento adquiridos nessas visitas são importantes porque nos tornam aptos a trabalhar em qualquer país, aposta Tietê.

 

Para facilitar a escolha, especialistas sugerem alguns critérios, como conhecer o histórico da instituição, o corpo docente e o currículo do curso. Essencial também é saber se a escola é credenciada ao Executive MBA Council, órgão internacional que reconhece as melhores escolas de negócios do mundo. Deve-se observar que tipo de serviço essa instituição tem prestado à sociedade e que diferença ela tem feito, opina o professor Jacob Jacques Gelman, vice-diretor administrativo da Fundação Getúlio Vargas de São Paulo.



Escrito por Cassiano às 18h52
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Silêncio na rede

 

Por que baixar músicas pela internet é uma aventura para o brasileiro

 

Sérgio Martins

Reginaldo Teixeira

 

 

A apresentadora Diana Bouth: ela ouve no site e vai atrás do CD 

 

Imagine um brasileiro que, cansado de sua coleção de CDs, resolva testar uma novidade: gravar uma música em seu computador através da internet. A idéia lhe ocorreu ao saber do sucesso do iTunes, o revolucionário site de venda de canções criado pela Apple, fabricante dos computadores Macintosh. Lançado em abril de 2003, em seus primeiros doze meses de funcionamento o serviço vendeu 70 milhões de músicas nos Estados Unidos. O internauta acessa o site e opta por uma faixa do último disco do grupo OutKast, um dos mais procurados pelos usuários do iTunes.

 

Descobre então que é impossível concluir a compra. Por causa do acordo entre a Apple e as gravadoras que abastecem o site, só pode usar o serviço quem mora nos Estados Unidos. Sem desanimar, o internauta migra para o maior site brasileiro do gênero, o iMusica, abastecido de canções das gravadoras BMG e EMI. A BMG lança os discos do OutKast, e ele volta à carga. Sem sorte, mais uma vez: o site brasileiro enfrenta várias restrições para comercializar as criações de artistas internacionais lançados por suas parceiras.

 

O internauta opta então por um artista nacional, o ministro da Cultura Gilberto Gil. Mas aí descobre que só quatro músicas do veterano estão disponíveis. Eis aí um dos maiores problemas da venda de músicas on-line no Brasil: a oferta limitada. São 60 000 faixas no iMusica contra 700 000 no iTunes.

 

Se o internauta comprar uma das canções de Gil, estará se reunindo a uma minoria. De acordo com o QualiBest, um instituto de pesquisa on-line, apenas 32% dos usuários brasileiros de internet aceitam a idéia de pagar para "baixar" uma música. E, desse grupo já restrito, somente 18% de fato realizam a operação. Sua segunda alternativa é fugir dos serviços pagos e explorar sites como o KaZaA, que oferecem uma infinidade de músicas de graça e promovem a troca de arquivos entre seus usuários. Mas atenção: quem se aventura no KaZaA corre o risco de ver seu micro invadido por anúncios indesejados e até coisas piores, como vírus e programas espiões.

 

Desde que o iTunes passou a operar, os Estados Unidos inauguraram um segundo período na história da música na internet. O primeiro período, que ainda não se esgotou totalmente, foi de guerra entre serviços como o KaZaA e as grandes gravadoras, que consideram que nesses sites seus produtos são pirateados. Agora, as gravadoras se mostram dispostas a disponibilizar parcelas cada vez maiores de seus catálogos na rede, enquanto um número cada vez maior de usuários se dispõe a pagar pelas músicas. O Brasil, no entanto, se mantém à margem desse processo. Assim como não mergulhou fundo no primeiro período (aqui, a pirataria que preocupa ainda é a dos CDs), o país se mantém em compasso de espera diante do segundo. "Todo mundo está aguardando para ver o que acontece", diz Paulo Rosa, diretor-geral da Associação Brasileira dos Produtores de Discos.

 

Em outras palavras, as gravadoras brasileiras não estão muito ansiosas para jogar os trabalhos de seus principais artistas na rede. Quando o assunto é música, portanto, o único internauta brasileiro que tem boas chances de sair satisfeito de suas incursões pela rede é aquele que se interessa pela cena alternativa. A gravadora paulistana Trama, por exemplo, lançou um site que divulga de graça artistas independentes. "Temos mais de 1.300 nomes cadastrados", diz Carlos Eduardo Miranda, diretor do projeto.

 

Outra opção é fazer como a apresentadora do Sportv Diana Bouth, que acessa rádios on-line dos Estados Unidos para se inteirar das novidades na área do hip hop. "Eu promovo festas de hip hop, e a internet me permite ficar antenada", diz ela. Nessas rádios, só se podem ouvir as músicas. Quando descobre alguma coisa de que realmente gosta, Diana compra o CD.

 

 



Escrito por Cassiano às 18h51
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Diogo Mainardi

Minha entrevista com Lula

 

"Quando um candidato não comparece a um debate, é comum substituí-lo por uma cadeira vazia. Entrevistei uma cadeira vazia"

 

Pedi uma entrevista a Lula. Ele não deu. E acrescentou: "Esse tal de Mainardi, nem sei aonde fica". Decidi então entrevistar seu mais célebre imitador, o Bussunda, do Casseta & Planeta. Ele responderia em nome do presidente, no falso gabinete do falso Palácio do Planalto. Bussunda não concordou. Achou melhor não se associar a mim. Pensei em entrevistar outro imitador.

 

Há muitos por aí. Fernando Henrique Cardoso imita Lula. Lulu Santos imita Lula. Até num torneio de dominó em Joinville apareceu um imitador de Lula. Chama-se Romualdo Caldeira de Andrada. Acabei desistindo da idéia. Quando um candidato não comparece a um debate na televisão, é comum substituí-lo por uma cadeira vazia. Entrevistei uma cadeira vazia:

 

O irmão de Celso Daniel declarou à Justiça que o dinheiro das propinas de Santo André era entregue diretamente a José Dirceu. Por que ele mentiria?

 

O senhor se cercou de assessores provenientes da prefeitura de Santo André, como Gilberto Carvalho e Miriam Belchior. O senhor não acharia conveniente suspender esses funcionários até o assassinato de Celso Daniel ser definitivamente esclarecido?

 

Quando o senhor anunciou que dobraria o valor do salário mínimo e criaria dez milhões de empregos, sabia que seria impossível cumprir essas metas ou acreditava em suas promessas? A hipótese mais benévola é a de que o senhor mentiu despudoradamente na campanha eleitoral, disparando um monte de asneiras em busca de votos. A hipótese menos benévola é a de que o senhor nunca parou para pensar o que de fato faria se ganhasse as eleições. Qual a hipótese correta?

 

O senhor costuma ser comparado a Fernando Henrique Cardoso na gestão da economia, mas é uma injustiça, porque seu governo interrompeu as privatizações, contratou 50 000 novos funcionários públicos e inflou a folha de pagamento do Estado. O resultado foi o aumento de impostos, o aumento do desemprego e a menor taxa de crescimento da história do Brasil, num primeiro ano de mandato. Como o senhor se sente quando o comparam a seu predecessor?

 

O senhor alardeia a reforma previdenciária como uma de suas maiores conquistas, mas ela nem terminou de ser votada pelos parlamentares. Se a proposta original já era insuficiente, o que pensar depois da PEC paralela? Daqui a quanto tempo ela precisará ser modificada?

 

O senhor cancelou a licitação de duas plataformas da Petrobras, com o argumento de que deveriam ser construídas no Brasil. Esse seu populismo nacionalista custará uns 5 bilhões de dólares aos contribuintes. Por que o senhor não vende a Petrobras?

 

O senhor acredita que a reportagem do New York Times sobre seu hábito de beber faça parte de uma trama internacional? Quem teria tramado e qual o motivo da trama?

 

O senhor pretende nos agraciar com um segundo mandato?



Escrito por Cassiano às 18h50
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Perfil

Palavra de gênio

Garoto de 13 anos, que faz doutorado em Matemática, veio ao País aconselhar professores

 

Rita Moraes

 

Ele já estampou a capa do The Times Magazine, revista do jornal inglês The London Times, foi recebido por Mickail Gorbachev e Bill Clinton, está se preparando para o doutorado de matemática e há três anos tem sido indicado para o Prêmio Nobel da Paz. E isso com apenas 14 anos. Apesar do sorriso de menino, o americano Gregory Smith surpreende não apenas por sua genialidade, mas também pela serenidade com que convive com ela.

 

Fundou a International Youth Advocates, uma organização que atua em vários países em defesa de crianças em situação de risco, inclusive no Brasil. Em sua segunda visita ao País, veio para abrir o Congresso Pitágoras de empreendedorismo  um novo passo na educação, realizado em São Paulo, nos dias 20 e 21. A Rede Pitágoras mantém 400 escolas no Brasil e seis no Japão. Quero dizer aos professores que ouçam as crianças para saber como elas querem crescer e aprender, disse Gregory, que cobra US$ 10 mil por apresentação.

 

O ativismo do garoto começou bem cedo. Aos sete anos, terminando o ensino básico, criou sua primeira instituição, a IEM  Inspiration, Education and Motivation, e não perdia uma reunião na vizinhança. Às crianças dizia que dessem duro para garantir seu futuro e aos adultos, que as motivassem para isso. O destino de crianças que não tinham, como ele, conforto material e familiar começou a incomodá-lo quando ele deveria estar largando a chupeta.

 

Aos quatro anos, ele via o noticiário da tevê e não se conformava com o sofrimento infantil em países pobres ou em guerra. Dizia que tinha de fazer algo, relembra o pai, o biólogo Robert Smith, 50 anos. Ele e a esposa, Janet, contam que não foi fácil lidar com a genialidade do filho, apesar da imensa alegria que isso proporciona. Greg sempre foi tranquilo, mas tivemos que mudar várias vezes de casa, de cidade em busca de escolas adequadas, conta Smith.

 

O garoto imberbe, que fala como gente grande, não parece ter sofrido para se adaptar à sua genialidade. Diz que se dá bem tanto com a turma na faculdade quanto com os adolescentes com quem joga bola. Da mesma forma que discuto problemas de matemática converso com os meninos da minha idade. Gosto de futebol e basquete, assegura. Quanto à namoradas, confessa: Estou começando a pensar no assunto. Greg pensa muito e alto.

 

Quer ser presidente de seu país. O presidente dos EUA pode mudar a face do mundo, diz. Só que ele terá de esperar 21 anos para isso. Por mais que falte genialidade na Casa Branca, 35 é a idade mínima exigida pela Constituição americana para a candidatura.

Escrito por Cassiano às 18h49
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Martha Medeiros

19/05/2004

 

Dúvidas absolutas

 

Se eu disser que desmaio de emoção quando leio alguma coisa a respeito de Ayrton Senna, estarei mentindo. Reconheço-o como um grande ídolo do nosso esporte e lamento sua morte precoce, mas termina aí. Do que mais tenho saudade, na verdade, é do tempo em que ver uma corrida de Fórmula-1 era emocionante porque ninguém sabia quem iria vencer. Havia favoritos, mas não havia monotonia: a incógnita estava sempre presente no grid. Hoje acabou a graça da Fórmula-1. Schumacher é o campeão dos desmancha-prazeres.

 

Outro dia perguntei pro meu marido qual a razão de ele ainda acompanhar as corridas, já que o vencedor é sempre o alemão. Ele respondeu que era pra ver quem tirava o segundo lugar. O vice passou a ser a grande novidade do pódio. É o que salva a Fórmula-1 da mesmice.

 

Imagino que até o Schumacher deva estar desanimado diante da banalização dos resultados. Mas nem por isso ele aliviará o pé do acelerador, ainda há um recorde a quebrar: o de o único piloto a vencer todas as corridas de um campeonato. Se ele for vitorioso em todos os Grandes Prêmios de 2004, aí não haverá triunfo maior. Torço para que isso aconteça logo e ele se aposente, para a gente voltar a ter aquilo que nos mantém acordados nesta vida: dúvidas!

 

Certezas são anestesiantes, sonolentas. Metade da população do planeta desligou a tevê antes de terminar a festa de premiação do Oscar porque não havia mais dúvida: O Senhor dos Anéis havia virado o Schumacher daquela noite. Sem a dúvida, bye, bye emoção. Por que as pessoas economizam seus "eu te amo"? Para valorizá-los. Para que ele não perca jamais o caráter de surpresa. É ótimo ouvir uma primeira vez, e uma segunda, e uma terceira, mas com um certo espaçamento entre as declarações. A todo minuto e instante, cai na trivialidade. "Alô, você vem almoçar em casa hoje ou vai ficar no escritório? Pra variar, né? Então vou almoçar fora também, não esquece de pagar a conta da luz, e vê se não chega atrasado de noite, que a gente tem reunião de condomínio, compra pão no caminho, tchau, tchau, te amo."

 

Dúvidas, cada um com as suas. Ainda me apaixonarei nesta vida? Quando reconhecerão meu talento para a música? Conhecerei a Austrália um dia? Estarei vivo para ver o Brasil ter educação, emprego e saúde? Morrerei mesmo, não serei uma exceção? Neste caso, quem irá ao meu enterro?

 

Manter a audiência não é coisa para principiantes. Vale pra novela, pra Fórmula-1, pra relacionamentos amorosos, vale para cada dia vivido: ou nossas dúvidas funcionam como um estimulante natural, ou nossas certezas terminarão com qualquer interesse pelo que vem pela frente.

 

martha.medeiros@zerohora.com.br



Escrito por Cassiano às 06h52
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David Coimbra

19/05/2004

 

Nua, numa cama estranha

 

Letícia acordou completamente nua numa casa estranha. Não conhecia a cama em que estava deitada de costas, nem o fino lençol enrolado em sua cintura. Não se lembrava de algum dia ter visto o quarto em que havia dormido. Sentia-se mareada. Bebera demais na noite anterior. Tequila. Disso se lembrava - tequila. Sentou-se com alguma dificuldade. Uma rápida vertigem fez com que desistisse de se levantar. Apoiou as mãos no colchão. Fechou os olhos. Abriu-os.

 

- Ohhhh - gemeu. - Tequila...

 

Levou a mão à testa. Massageou as têmporas. Tentou recordar o que tinha acontecido. A última imagem que lhe vinha à mente era da festa que fora com a turma do clube, num karaoquê. Que idéia, ela nem gostava de karaoquê. Mas naquela noite havia se liberado. Era a comemoração da conquista do título, tudo valia. Aí, cantou, dançou, bebeu... Tequila. Como bebeu tequila. Com foguinho e vira-vira. Oh, Jesus... De mais não se lembrava. O que havia acontecido?



Escrito por Cassiano às 06h51
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Filhos...

 

Para quem é pai/mãe e para aqueles que o serão...

Texto de Affonso Romano de Sant'Anna

 

Há um período em que os pais vão ficando órfãos dos seus próprios filhos. É que as crianças crescem independentes de nós, como árvores tagarelas e pássaros estabanados. Crescem sem pedir licença à vida. Crescem com uma estridência alegre e, às vezes, com alardeada arrogância.Mas não crescem todos os dias de igual maneira. Crescem de repente.

 

Um dia sentam-se perto de você no terraço e dizem uma frase com tal maturidade que você sente que não pode mais trocar as fraldas daquela criatura. Onde é que andou crescendo aquela danadinha que você não percebeu? Cadê a pazinha de brincar na areia, as festinhas de aniversário com palhaços e o primeiro uniforme do Maternal?

 

A criança está crescendo num ritual de obediência orgânica e desobediência civil. E você está agora ali, na porta da discoteca, esperando que ela não apenas cresça, mas apareça! Ali estão muitos pais ao volante, esperando que eles saiam esfuziantes sobre patins e cabelos longos,soltos.

 

Entre hambúrgueres e refrigerantes nas esquinas, á estão nossos filhos com o uniforme de sua geração: incômodas mochilas da moda nos ombros.Ali estamos, com os cabelos esbranquiçados. Esses são os filhos que conseguimos gerar e amar, apesar dos golpes dos ventos, das colheitas,das notícias, e da ditadura das horas. E eles crescem meio amestrados, observando e aprendendo com nossos acertos e erros. Principalmente com os erros que esperamos que não repitam.

 

Há um período em que os pais vão ficando um pouco órfãos dos próprios filhos. Não mais os pegaremos nas portas das discotecas e das festas. Passou o tempo do ballet, do inglês, da natação e do judô. Saíram do banco de trás e passaram para o volante de suas próprias vidas.

 

Deveríamos ter ido mais à cama deles ao anoitecer para ouvir sua alma respirando conversas e confidências entre os lençóis da infância, e os adolescentes cobertores daquele quarto cheio de adesivos, pôsteres, agendas coloridas e discos ensurdecedores. Não os levamos suficientemente ao Playcenter, ao Shopping, não lhes demos suficientes hambúrgueres e cocas, não lhes compramos todos os sorvetes e roupas que gostaríamos de ter comprado. Eles cresceram sem que esgotássemos neles todo o nosso afeto.

 

No princípio subiam a serra ou iam à casa de praia entre embrulhos, bolachas, engarrafamentos, natais, páscoas, piscina e amiguinhos. Sim, havia as brigas dentro do carro, a disputa pela janela, os pedidos de chicletes e cantorias sem fim. Depois chegou o tempo em que viajar com os pais começou a ser um esforço, um sofrimento, pois era impossível deixar a turma e os primeiros namorados.

 

Os pais ficaram exilados dos filhos. Tinham a solidão que sempre desejaram, mas, de repente, morriam de saudades daquelas "pestes". Chega o momento em que só nos resta ficar de longe torcendo e rezando muito (nessa hora, se a gente tinha desaprendido, reaprende a rezar) para que eles acertem nas escolhas em busca de felicidade.

 

E que a conquistem do modo mais completo possível. O jeito é esperar: qualquer hora podem nos dar netos. O neto é a hora do carinho ocioso e estocado, não exercido nos próprios filhos e que não pode morrer conosco. Por isso os avós são tão desmesurados e distribuem tão incontrolável carinho. Os netos são a última oportunidade de reeditar o nosso afeto. Por isso é necessário fazer alguma coisa a mais, antes que eles cresçam.

 

Aprendemos a ser filhos depois que somos pais. Só aprendemos a

ser pais depois que somos avós...

 



Escrito por Cassiano às 23h39
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autor@paulocoelho.com.br


Gengis Khan e seu falcão


Em recente visita ao Cazaquistão, na Ásia Central, tive a oportunidade de acompanhar caçadores que usam o falcão como arma. Não quero entrar aqui no mérito de discutir a palavra “caçada”; apenas dizer que, neste caso, é a natureza cumprindo o seu ciclo.

Eu estava sem intérprete e o que poderia ser um problema terminou como uma bênção. Impedido de conversar com eles, prestava mais atenção no que faziam: vi nossa pequena comitiva parar, o homem com o falcão no braço distanciar-se um pouco, retirar a pequena viseira de prata da cabeça da ave. Não sei por que decidiu parar ali e não tinha como perguntar.

A ave levantou vôo, traçou alguns círculos no ar e depois, em um bote certeiro, desceu em direção à ravina e não se moveu mais. Chegamos perto, e uma raposa estava presa em suas garras. A mesma cena ocorreu mais uma vez, durante aquela manhã.

De volta à aldeia, encontrei-me com as pessoas que me esperavam e perguntei como é que conseguiam domesticar o falcão para fazer tudo aquilo que vi — inclusive ficar docilmente no braço de seu dono (e no meu também; colocaram-me umas braçadeiras de couro e pude ver de perto suas garras afiadas).

Pergunta inútil. Ninguém sabe explicar: dizem que esta arte passa de geração para geração, o pai ensina para o filho e assim por diante. Mas ficarão para sempre gravados em minhas retinas as montanhas nevadas ao fundo, a silhueta do cavalo e o cavaleiro, o falcão saindo do seu braço e o bote certeiro.

Fica também uma lenda que uma das pessoas me contou, enquanto almoçávamos:

Certa manhã, o guerreiro mongol Gengis Khan e sua corte saíram para caçar. Enquanto seus companheiros levavam flechas e arcos, Gengis Khan carregava seu falcão favorito no braço — que era melhor e mais preciso que qualquer flecha, porque podia subir aos céus e ver tudo aquilo que o ser humano não consegue ver.

Entretanto, apesar de todo o entusiasmo do grupo, não conseguiram encontrar nada. Decepcionado, Gengis Khan voltou para seu acampamento — mas, para não descarregar sua frustração em seus companheiros, separou-se da comitiva e resolveu caminhar sozinho.

Tinham permanecido na floresta mais tempo que o esperado e Khan estava morto de cansaço e de sede. Por causa do calor do verão, os riachos estavam secos, não conseguia encontrar nada para beber até que — milagre! — viu um fio de água descendo de um rochedo a sua frente.

Na mesma hora, retirou o falcão do seu braço, pegou o pequeno cálice de prata que sempre carregava consigo, demorou um longo tempo para enchê-lo e, quando estava prestes a levá-lo aos lábios, o falcão levantou vôo e arrancou o copo de suas mãos, atirando-o longe.

Gengis Khan ficou furioso, mas era seu animal favorito, talvez estivesse também com sede. Apanhou o cálice, limpou a poeira e tornou a enchê-lo. Com o copo pela metade, o falcão de novo atacou-o, derramando o líquido.

Gengis Khan adorava seu animal, mas sabia que não podia deixar-se desrespeitar em nenhuma circunstância, já que alguém podia estar assistindo à cena de longe e mais tarde contaria aos seus guerreiros que o grande conquistador era incapaz de domar uma simples ave.

Desta vez, tirou a espada da cintura, pegou o cálice, recomeçou a enchê-lo — mantendo um olho na fonte e outro no falcão. Assim que viu ter água suficiente e quando estava pronto para beber, o falcão de novo levantou vôo e veio em sua direção. Khan, em um golpe certeiro, atravessou o seu peito.

Mas o fio de água havia secado. Decidido a beber de qualquer maneira, subiu o rochedo em busca da fonte. Para sua surpresa, havia realmente uma poça d‘água e, no meio dela, morta, uma das serpentes mais venenosas da região. Se tivesse bebida a água, já não estaria mais no mundo dos vivos.

Khan voltou ao acampamento com o falcão morto em seus braços. Mandou fazer uma reprodução em ouro da ave e gravou em uma das asas:

“Mesmo quando um amigo faz algo que você não gosta, ele continua sendo seu amigo”.

Na outra asa, mandou escrever:

“Qualquer ação motivada pela fúria é uma ação condenada ao fracasso”.


Escrito por Cassiano às 22h24
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Amar é muito mais do que fazer amor

Bom hoje estou experimentando pela primeira vez entrar neste espaço que já deveria ter sido disponibilizado pela Folha há muito tempo, visto a sua tradição e visão de futuro de seus dirigentes. Foi preciso a GLOBO, o TERRA e tanto outros disponibilizarem seus espaços para que a Folha finalmente também assimilasse e seguisse a tendência.

Mas como sempre é melhor, antes tarde do que nunca, ainda é tempo e o ENTRELAÇOS que já está na Globo há quase dois anos, no Terra, há mais de um ano agora tabém vem fazer parte do Uol com o seu Blog.



Escrito por Cassiano às 21h05
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